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Séries de Camila Cidreira expostas em "Tanta Imensidão" 
A menina com asas sentada na relva e a leveza do corpo de uma bailarina apoiada ao cérebro, nas telas de Camila Cidreira, indicam a descida daquilo que causa a suavidade na existência. Mesmo que ainda preso ao peso do cotidiano, da razão opressora, é possível saltar do paradoxo de um cotidiano Vs. a arte de voar. O corvo rosa é a descida do sagrado ao cotidiano, que suaviza o simples olhar de uma janela em algo de extraordinário esteticamente.

O quadro em que há uma bailarina equilibrada ao cérebro é revelador ao conteúdo da obra completa. Não é possível suavizar pela razão, ou de modo afirmativo: somente se suaviza pelo delírio. O delírio é a emoção da alma, que é possuidora de asas, e, portanto capaz de voar. O corvo não tem haver exatamente com a realidade, mas com o delírio do corpo, a imaginação, que suaviza o real.

O corvo rosa é a desconstrução da imaginação/fantasia como uma perturbação patológica da alma. O corvo não é mais aquela ave fúnebre, obscuro como a treva cristã, mas agora é um pássaro rosa e companheiro inseparável de uma menina. Menina ainda encarnada a sua inocência, ou seja, o humor da criança que faz dela um ser demasiadamente imaginativo.

O corvo que ao amanhecer do dia vêm visitar a menina, ainda vestida com a roupa preta da madrugada, são idênticos, a menina ao ver o corvo se encontra na verdade consigo mesma. Imagine, qual é a primeira cor do dia? Quando o dia amanhece é um tom rosado no céu, pueril como um recém-nascido, não é assim? O corvo entontece de tanto amor na aurora e pousa em si.

Andar, voar e nadar sendo possíveis em uma mesma espécie, teria que existir um ser composto de asas, barbatana e patas. Não como utopia, mas no direito de sonhar no mundo real, na permissão de um dia-a-dia suavizado, com a tolerância do não ser para o existir. Camila Cidreira, que já têm esse sobrenome de chá, ao desenhar causa um profundo relaxamento, em um assunto que para muitos seria como ir ao enterro do amado.

Darlon Silva,
Poeta.

obra de Maurício Teixeira, exposta na exposição "Tanta Imensidão"

Em “Mundo das Águas”, Maurício Stone capturou o último suspiro da água, a ferocidade de um mundo rodeado de vulcões em erupções, o chão seco, o Deus desfigurado, o céu em sangue, a anarquia, o ser para a morte, metal em fusão, as artérias volumosas, o segredo do salto mortal, estado de guerra e tudo que cause fervor a nossa civilização escaldante.

A agonia da água diante ao vulcanismo industrial não é o mesmo sentimento de erupção das lavas na lei natural, mas talvez seja um apelo ao céu escuro por inundação, que assim se destrua e volte a ser, retroceda. O vulcão ativo em questão na verdade é a anarquia da nossa civilização, que burlou com todas as erupções dos divinizados elementos da natureza. O vulcão pintado tem a mesma forma retangular das indústrias que expelem gases poluidores ao ar e secam a vida dos rios com seus imundos dejetos.

De uma erupção nasceu o homem civilizado, que antes não sabia o que era o poder de manipulação do ferro. Muito provavelmente a metalurgia, que originou a história da civilização, tenha surgido com o vômito de algum vulcão e depois o homem imitou com outros meios. O vulcão ensinou segredos ao homem, e eles perverteram a ideia em agricultura desenfreada e fabricação de armas bélicas. Esse foi o primeiro passo para a institucionalização da propriedade exagerada de alguns e de todas as viciosas vaidades.

O rosto da água anuncia a morte, e quase todo o corpo já está derretido pelo calor do magma, que já desce do cume da montanha secando o chão, acompanhado de muito fogo e negras fumaças, como nas chaminés das indústrias. No “Mundo das Águas” o chão é seco, tudo é quente, sanguíneo e colérico, contrariamente o nome do mundo, que é dado pela nítida falta e não pela central presença do azul, da fleuma. O céu é negro e contaminado de chuva ácida.

A boca entreaberta parece gritar ao quente de todo o vermelho da tela. O vermelho da lava e também do céu carregados de nuvens negras. A boca e as nuvens indicam a chuva torrencial que esta para acontecer. Grande chuva pressagia inundações planetárias e esquecimento de um mundo antigo, perturbado pelo mau uso do segredo revelado pelas calorentas veias anárquicas da terra, e das feridas insecáveis de um mundo enfermo.

Em Mundo das Águas, Maurício pretende cicatrizar esse mundo – recorre à água para lhe purificar. A inundação que esta preste a ocorrer purificará todas as desmedidas de nossa civilização. No céu obscurecido, há uma forte presença da água em potência, onde o retorno às origens da lei natural será possível pela rebeldia da chuva. Quando a última gota do céu cair, a trovoada cessar e a terra seca se tornar mar, o absoluto estará de volta, os vulcões dormirão, até a chegada de um novo jovem anarquista como este.


Darlon Silva,
Poeta.

o artista em frente ao díptico "Mundo das Águas"

Obras de Luana Vellame expostas no "Tanta Mansidão" - Bahvna Espaço Cultural

A mulher com seus vários amuletos e marcas de uma iniciada dos mistérios lunares se mantém com olhos sempre fechados, mas por quê? Trata-se de uma mulher possuída pela luz noturna, que se abrissem os olhos faiscaria com tanta iluminação, capaz de cegar quem a olhasse? Tudo indica que só com a habilidade do veado de visão noturna poderia assim olhar sem medo, encarar.

Na escuridão da noite só encara aquele que se habituar a nascer, florescer, morrer e renascer como a Lua, ou seja, aquele que está sempre em transição a alguma coisa. A mulher para ficar cheia novamente, precisou voltar a andar de quatro patas, regredir a sua espécie animal. A mulher e o veado são o mesmo em fases diferentes.

Menina, mãe e anciã, assim os Celtas definiram a Lua. Ela engatinha quando menina, fecunda em lua cheia e é sábia na velhice. Tal como se comporta uma mulher que menstrua, tatuagem indissociável no corpo da mulher, a lua segue o ciclo de nova, cheia e minguante. A chave pendurada no pescoço, todos os amuletos, é a possibilidade de abertura do ressurgir constante da mulher.


A mulher é alegre e triste ao mesmo instante, porque tem que conviver com o nascer e o morrer a cada tempo. As tatuagens guardam o código da transição, como o código genético presente em um grão, que mesmo sendo algo morto não se esquece de renascer em uma porção de terra. Um galho no pé, triângulos e luas.

Darlon Silva,
Poeta

Obra de Tita Anjos exposta na exposição "Tanta Imensidão" no Bahvna Espaço Cultural

Mais além do vermelho sanguíneo e da tapeçaria florida pelo branco do crochê, um ser mitológico, uma parte mulher a outra pássaro, ambas criativas. Essa mulher zoomorfizada aterroriza como a Hidra de Lerma, que ao cortar uma cabeça surge assim duas, e que ao ser queimado pelo vermelho do fogo atrás, restará só a última e imortal cabeça, a da própria artista que fiou a tapeçaria.

Tita Anjos é a mulher coruja, noturna e melancólica como uma sereia. Carrega o peso do tempo em seus ombros, em uma vara flexível de bambu, que hora tende ao côncavo e ao convexo, igualmente ao cantado na voz trêmula de Bethânia. O bambu que em sua terra faz rodopiar emoções do sublime ao terror no meio do ano. Bambu que apesar de permitir o excesso e a falta, no fundo é a moderação que o tempo encarrega de ensinar aos sábios.

A coruja é a ave da sabedoria porque conhece a noite, enquanto os demais dormem, é a encarregada de fazer a vigília dos sonos. A coruja conhece o bem e o mal que se desvela com o tempo, por isso é um animal que traz tantos presságios. O conhecimento futuro seduz como uma flor ou o corpo de uma mulher, mas apenas o sábio vai conseguir ficar sereno ao ver as pernas de uma mulher e não atacá-la e ser ferido pelos espinhos.


Cada ponto do bordado é como o fuso que gira no joelho da mulher fiandeira do destino. As mulheres do Recôncavo, que herdaram o tecer cotidiano dos seus ancestrais, são todas como as Parcas gregas, possui dons muitos especiais, porque são filhas da noite. A voz inesquecível de Bethânia, cantando “a matriarca da Roma Negra” é o fundo musical desse meu olhar sobre o quadro, ou melhor, meu olhar sobre Tita Anjos.

Darlon Silva,
Poeta

La Catrina de Damapejú exposta no EM México

O traje noturno de uma noiva cadavérica é florescido pela luz da lua. O vestido lúgubre que cobre a vida de pulsão inferior, amenizado pelo frio interno,  constitui o aspecto esquelético de La Catrina. O amor da caveira que vai se casar é o avesso da amada que se une ao amante em pleno sol do meio dia. O amor de La Catrina é o contrário do fogoso, é frio, sombrio, mórbido e úmido.

A morte é o fenecimento das folhas no inverno e o que segue disso, como o rio que desaparece com o gelo. O silêncio na claridade da lua noturna que ofusca os olhos carnais. Não há carne, somente o esqueleto, e os ossos é a própria carne. O vestido não poderia ser como o branco das virgens, já que se trata da própria virgindade em si, do que torna as coisas que são virgens temporariamente.

Já que se desfez da sensibilidade da carne, em prol do amor ao absoluto, a escuridão da noite preenche o coração de La Catrina. A morte do ego engradece o vestido da noiva e é intrínseco a jornada da união com o amado. A cauda do vestido é o regresso a origem da luz. A parte frontal é o tapete com seus chakras que permite a simetria do retorno.

Quando a luz da lua aparece refinando o dia dos finados, celebra-se a noite de um calor friorento, a comemoração da tristeza e a reversão das perdas em encontro com o absoluto. A lona preta celebra todas as cores adornados no rosto e chapéu de La Catrina.

No vestido sombrio de La Catrina João Damapejú, nos remete ao lunar, mais alto e fúnebre amor, longe de qualquer iluminação que não seja o da poesia das catacumbas. A tessitura minuciosa do traje revela um artista capaz de tecer o lado oculto da noite, que aos despreparados seria algo aterrorizante.

Darlon Silva,
Poeta.

Performance apresentada na abertura da exposição

As contorções do seu corpo, a roupa com o tom da sua pele, as formas arredondadas, a pintura triangular do seu rosto e o gozo. Quando Jaiton Santóz expressou a performance que culminou no gozo oral, os visitantes se deslumbraram com o significado do que toda a exposição apontava. O gozo oral além de ser o clímax da exposição, provocou uma atualização da grandiosidade do que a estética do feminino tratava, em uma espécie de síntese do sexo, corpo e liberdade.

O corpo se confrontou com o dois-em-um, com a sua dialética, pois o plural é a essência indissociável do sexo. O plural é a essência do feminino, que é a lei erótica da terra. Note também nas pinturas, que os corpos femininos são múltiplos ou vêm acompanhados de uma imagem dupla, dois pares de pernas, de bundas e de seios em um mesmo desenho. Só o feminino poderia provocar um gozo que pudesse ser jorrado, como a planta que precisa da terra para brotar.

Jailton Santóz desenvolveu o feminino nas telas com o corpo da mulher, enfatizando o múltiplo das suas formas e dando movimento a matéria. Na multiplicidade de corpos nas imagens, forma a cópula do dois-em-um, daí, se abstrai a ideia de que na livre busca do sexo, a mulher se apossa de uma orgia consigo mesma, na tentativa de fazer companhia a si. O sêmen só é fecundo no envoltório da presença total do corpo da mulher.

A utilização do preto e branco já tem uma função dialética bem definida. Trata da dualidade existencial do eu consigo mesmo, que é a favor e oposto a si. O preto e branco é a contradição que se revela em um mesmo corpo, a claridade e a escuridão da busca da liberdade orgástica, a consciência e a inconsciência dos atos sexuais, etc.

As formas onduladas permitiram a reunião dos corpos. Uma figura composta em partes distintas e em todo uniforme, é o todo e as partes simultaneamente, como se pensa a ideia de um cavalo alado sem problemas em uma intelecção. As mulheres se adicionam umas as outras e formam outras configurações.

Até mesmo os aperitivos da vernissage haviam um sentido elaborado na estética do feminino. Os sequilhos tinham formas de vaginas, nádegas e seios. A digestão dos signos femininos pelos visitantes, dialoga subjetivamente com a ejaculação pela boca na performance. O gozo oral representa a libertação do fálico aprisionador através de um intenso prazer para a mulher.


Darlon Silva,
Poeta.

+ fotos em: http://goo.gl/ogPnJP

O que sabemos de nós mesmo sem Todo o calor que me falta? Ramon Gonçalves nos lança a mais enigmaticidade no símbolo indecifrável do Coyocán, sob a luz de Vênus em áries. Ramon reivindica que pensemos o homem em seu deserto metafísico, então acalmemos os ânimos, estamos em um território selvagem e escuro. Comecemos nossa análise.

Coyoacán, da série "Todo o Calor que Me Falta" (2014) - Ramon Gonçalves

Pensemos! O que é o homem que pensa? Será uma amigável ovelha como no evangelho ou um lobo da estepe fadado em viver sua solidão? A solidão do lobo é silenciosa e noturna. Que terrível é a vida do lobo que não segue nenhum pastor, porém não se pode negar que é uma vida excitante. Nenhum cão que acompanha o pastor se iguala ao lobo, porque o lobo é selvagem, ele uiva ao viver a noite.

A solidão do lobo não quer dizer que ele seja a ovelha desgarrada, a solidão não excluí os demais, somente é a sobriedade enquanto as ovelhas dormem. O lobo uiva para lua, contemplando todos astros que está além dele, a busca astrológica de ir onde não se sabe. Na sua sobriedade, sabe que está a volta de algo que o ultrapassa. Seu uivo-lírico é trazer o enigma para a linguagem.

O lobo chora da impossibilidade de não tocar a lua, mas é da sua lágrima fervente que ela dissolve e se apropria, é seu uivo-lírico que torna a noite silenciosa. Todo o calor que falta é do âmbito do desconhecido, do ser indeterminado. Falta algo no ente do ser, mas o quê não se sabe, porque é noite.

O lobo é amante da Lua, pois tudo o que é do oculto é excitante. A noite esconde o mistério da fertilidade. Como algo pode se transformar em outro? Creio que só a mulher seja capaz de entender o enigma de vênus em áries. A lua e a mulher são esfinges encarnadas. Quando a mulher é minguante, a lua revela o mistério da mama.

O homem é o lobo do homem, e nisso consiste mais elogio a virtude do animal do que ao próprio homem que teme o pensamento. Terríveis mesmo são todos os pensadores que temem a noite, imitam os antigos  pois não conseguem pensar em sua solidão. Silêncio, na noite o fluxo não é de dentro, nem fora, nasce a partir de si mesmo.

Darlon Silva,
Poeta.

da série "Todo o Calor que Me Falta"

a direita; série de Ramon Gonçalves apresentada na EM México

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"Minha obra é sempre o todo e sempre partes do todo". 
 Jaiton Santóz 

"O movimento nas obras é como um relógio que marca o tempo, mas não diz quando este tempo começou e quando irá terminar". 
Jaiton Santóz 


Um manto de corpos amontoados que exibem a sensualidade do corpo feminino, nos fragmentos das imagens da obra de Jaiton Santóz, forma uma cópula da matéria e do movimento em seu metrificado espaço. Jaiton trata precisamente do que é móvel na estética.

Por meio de cada superfície dos variados corpos particulares se conduz a uma nova e única pele, como se a composição da pele inteira abrigasse inúmeros corpos. Uma proporção que quando se movimenta pelo querer dos corpos juntos, sujeita ao proveito de seu todo.

O mar que se torna singularizado em uma onda, é o seu todo e as partes do seu todo. Os corpos singularizados em curvas, se tornam aleatórios pelo contínuo de todas ondulações. Somente pela abstração do movimento é possível uma onda ser uma onda e também parte do mar.

Um objeto não pode ser matematizado cabalmente em um movimento linear, respeitando início, meio e fim sem cair no erro. Se pensarmos o paradoxo de Zenão de Eléia, a flecha não chegará a seu alvo, isso porque não devemos pensar o movimento partilhado.

O movimento deve ser entendido na obra de Jaiton como adequação da sensação com o corpo. Só há movimento porque desejamos algo. Se eu, por exemplo, desejo um copo de água, tenho que me deslocar até a cozinha para beber. O corpo feminino e o desejo são o mesmo, porque todo desejo nos remete ao laço primordial com a mulher.

Porque Jaiton dissertou o movimento como uma força estimuladora, permitiu uma grandeza temática ao seu trabalho. Possibilitou desenvolver outras questões relevantes, como amalgamar as questões de etnia e gênero, a questão do estímulo em sua origem filológica (enquanto movimento de fato), como de autoestima aos subjugados e superação da superestima da ideologia colonizadora de corpos.

Darlon Silva,

poeta.


Obra de Alex Ígbo exposta na EM México (2014)

A janela do povo brasileiro foi carpintada por um sincretismo de combinações, que hoje não pudemos mais identificar um símbolo sem estar mesclado assim com outro, mesmo na sua origem mais conflituosa. O caso é que amalgamou no imaginário popular as imagens de Jesus e Exu com uma simbologia similar de mensageiros, no entanto Exu foi associado pelos missionários ao Diabo, que é rival ao mensageiro Jesus.

A proposta de Alex Ígbo é então juntar Exu com Jesus. Já que ambos são o caminho que leva a casa de Deus, em alguma encruzilhada os dois devem se encontrar. Porque Jesus foi crucificado, ele pode se conciliar com Exu. Só na ressurreição das idéias Exu e Jesus se apaziguam em Jexus. Então o vinho e a cachaça serão o mesmo entorpecimento no rito do sagrado.

Se juntarmos duas cruzes, uma em pé e outra de cabeça para baixo, formará duas encruzilhadas. Nas encruzilhadas o dinâmico se faz presente nas aberturas dos caminhos. O que aparece no translúcido dos vitrais é a abertura para um terceiro elemento que congrega as diferenças de Jesus e Exu. O vidro alerta que no conflito pode quebrar e obscurecer o aviso proposto.

Se as encruzilhadas são as portas, a janela é abertura para ventilar a casa de Deus. Jesus e Exu simbolizam a comunicação com o divino, por isso têm características de leveza. A pena de papagaio de Exu e a humildade de Jesus (que anda sobre as águas), expressam o sentido de um ser que anuncia uma mensagem de libertação, pela luz que emana do interior da casa.

Curvou-se em seu caminho um crucifixo na encruzilhada, e viu que há muitos mais traços de Exu com Jesus, do que com a face do Diabo. Alex Ígbo teve que domar aquilo como um carpinteiro às palavras, harmonizou tudo, agrupando em Jexus.

Darlon Silva,
Poeta.

Despir o nu (2014) - Suzane Lopes


Falar sobre a obra de Suzane Lopes exige que me desnuda de toda roupagem inautêntica, porque esta obra se funde aonde a poesia e a filosofia chega a seu ápice, que é na alegorização. Não é nada fácil apontar a realidade como símbolo alegórico, porque a alegoria sempre quer dizer outra coisa.

Se o traçar do destino atormenta e vaticina a história, nem tudo ainda está acabado, resta ainda despir o nu. Quando os deuses prenunciaram a infelicidade de Édipo, restou a ele furar os olhos. De certo modo o vazar os olhos é despir o nu, é enxergar o não visto pelos olhos carnais.

A ação é pré-traçada só enquanto não se há consciência do ato, por isso as Moîras na mitologia grega são filhas da Noite. O cabelo que vai se traçando a tudo tem o sentido da complexidade da inconsciência. O destino não é totalmente irreversível, mas quando é despido, conscientizado, tem um preço a se pagar.

O preço a se pagar pela busca da independência de Rapunzel é a cegueira do amado, que fere os olhos no espinho e os próprios cabelos cortados pela Bruxa. Não é à toa que no conto de Rapunzel o cabelo é o que seduz o príncipe a subir a torre. O que é entrelaçado é tecido por cima de algo na sua nudez. Despir o nu é então subtrair a roupa que foi acrescentada, no caso o aprisionamento, e a nudez é a liberdade de Rapunzel.

Para despir o nu, é preciso antes metamorfosear a visão noturna dos veados, a habilidade de enxergar com baixíssima intensidade de luz. A Noite é a preparação anciã para poder ver. A noite só é escura porque já não precisa das cores para saber o que cada coisa é e onde se encontra, como na sabedoria dos mais velhos.

Os olhos arrancados, os longos cabelos, o preto e branco, o veado e os sinais são as partes ditas neste texto, falta ainda à parte não dita.

Darlon Silva,
poeta.

Obra exposta no Teatro Gamboa Nova na exposição "EM México"

carta ao desconhecido 84  (2014) - Juca Lordelo

Com um metadiscurso sobre uma caixa de papelão, Juca Lordelo em cartas ao desconhecido 84, faz um discurso denunciando a subjetividade do indivíduo. O olhar cabisbaixo de alguém introspectivo, centrado somente em um apito em forma de pássaro alaranjado. O pássaro é uma ideia embutida, e não há nada mais ameaçador que essa ideia. Isso faz com que além da imagem o apito tenha uma res extensa na obra. O pássaro é o solipsismo, a dúvida hiperbólica que faz do homem um ser sempre sozinho.

As peças apontam a um estilhaço e nunca a um todo formado. Esse desmembramento só se atualiza quando alguém se indaga sobre a obra. O fato de estar sobre uma caixa, já indica um desmembramento, que intenciona a incerteza. Recortes colados em fitas adesivas desdobram o metadiscurso como na montagem da envoltura da embalagem. Na medida em que se indaga sobre a obra o eu se remonta.

Ao reconciliar todas as partes, o todo da sua presença reconhece a alteridade de modo distinto. A pena significa o peso do que é o outro, apenas o eu pode ser dito pesado. O eu pode estar embutido na sua mais profundidade, mas o outro enquanto outro só se revela na sua leveza de ser. Não se leva mais nenhum fardo transcendental, a inclusão da pena tem uma função niilista. O eu que indaga é criador da própria consciência da obra.

O pássaro é o maior símbolo associado à consciência, não só porque voa, mas por ser também fonador. Só há consciência de fato quando o eu nomeia, ou quando ele assim se estende ao já conhecido. E há um paradoxo terrível nisso, o absurdo de conhecer o desconhecido. O homem só é homem porque nomeia, no entanto quando nomeia deixa de ser, surge então o paradoxo, que faz do homem um ser sempre sozinho.

De seu próprio interior, Juca Lordelo, apela a um realismo epistolar de tentar se comunicar com o desconhecido. Não sendo a primeira carta, mas a octogésima quarta, será que alcançou aquele que não conhecemos, o tal Desconhecido?

Darlon Silva,
poeta



A artista Tita Gracielle escuta áudio exposto junto a obra


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O que é mais nobre na obra de Juca Lordelo é essa presença dele mesmo. Ele guarda a si e ninguém mais. Apesar do rastro de uma pena, não existe um anjo da guarda o velando. Essa pena só significa que ele não leva nenhum fardo de algum sacrifício metafísico. É ele em que dialoga consigo a todo tempo, até mesmo no vazio do seu Eu.

O papel velho, a folha seca e a ferrugem indicam o envelhecimento. A folha se refere de como ele dialoga com a natureza; nasce verde nos galhos, seca e cai. O papel; inicialmente se rabisca a novidade e depois se torna velho como o papiro. A ferrugem; mesmo no metal, que é símbolo de força, é passível de perecimento.

O elemento enferrujado é uma peça integrante a um classificador. A classificação natural dos comportamentos se dá por um hedonismo (tender ao prazer e fugir da dor), porém existe um Eu que dialoga com o outro Eu, onde pode se arquivar cada coisa. As experiências são categorizadas, mas também são embaralhadas pelas mutações cotidianas.

O artista não quer dizer que somos páginas em branco em que vamos escrevendo a vida, mas que o Eu é um colecionador dessas páginas. O Eu em certo sentido é vazio, porque coleta os objetos ao acaso, mas também é carregado de outros Eus, pois seleciona os mesmos objetos. Portanto não é paradoxal que exista um Eu vazio e um Eu duplo.


Em tantos artistas que transferem seu Eu para personagens fictícios, escondendo-se em suas estranhas intimidades, criando mundos que não existem de fato por covardia, acho nobre essa atitude de coragem desse artista Juca Lordelo.

Darlon Silva,
Poeta

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O olhar atento da criança nas duas imagens são também janelas para o mundo, onde se quebrou o vidro que separa entre a ideia fantasiosa que se têm do menino e a realidade pulsante de sua alma. Esse é um olhar do conhecimento, que pouco se encontra nas escolas segregadas por instituições pedagógicas de ideologia escravocrata/ aristocrática. Os olhos só são janelas, porque detrás dos olhos, existe sempre um necessário movimento interno que permite o olhar, que quando se volta a si, explode na obra de Suzane Lopes.

É o espanto do olhar do jovem Teeteto que Sócrates fala: “Não estás vazio, algo em tua alma deseja vir à luz”. Os sofistas aborreciam Sócrates pelo fato deles cobrarem por ensinar o conhecimento, o filósofo ironizando isso inicia um diálogo com Teeteto, sobre o que realmente é o conhecer. O jovem responde algo muito próximo a “movimento interno/ sensação”, e Sócrates analisa essa definição comparando com as teorias do movimento dos filósofos e poetas que o precederam.

Os olhos não são portas, mas são janelas para algum lugar, que só com a traquinagem de um menino é conveniente saltar. A traquinagem é mesmo um modo explosivo de introspecção. O olhar do menino é um exercício das suas verdades que se movimenta como um susto ao traque. Esse é o susto do embaçado a clareza das ideias. Do combate do branco à escuridão é certo que existe um meio termo, e que são os inumeráveis tons de cinza.

Só existem dois olhos porque são janelas de diálogos, que somente em um piscar de olhos se decide dizer SIM ou NÃO às explosões. Qualquer explosão é uma explosão, mas o que importa é que tem o poder de decidir. A bomba de Hiroshima é uma explosão. A bomba do menino em São João. O homem bomba. Só o que não concerne ao mundo é mesmo essa mudez de gente adulta menor, esses muros sem janelas.

Apesar da obra de Suzane Lopes abordar sobre um movimento de militância social, ela se refere a algo mais profundo, a origem da própria mudança, como nos iluministas, que captaram no símbolo da saída da menoridade para a vida adulta o sentido de uma revolução da humanidade.

Darlon Silva,

Poeta.

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O sentido filológico no taoísmo do par inseparável yin e yang refere à sombra e a luz da montanha. É justamente na montanha a intenção da poesia exposta. A paciência da montanha  segue o tédio de Maomé. A montanha quando entediada desloca para outro lugar.

Ao chegar ao cume da montanha é descoberta a existência do horizonte, um ver inesquecível do céu, mas logo o leitor sente vertigem pela altura. O que o poeta Darlon Silva esconde, mas aqui será explicitado, é que se trata de um guia ao leitor para o abismo. A vertigem no fundo é o desejo de se jogar ao abismo.

O ápice da montanha incomoda bastante, como qualquer tagarela costuma chatear quem cultua o silêncio. O poeta desafia o leitor para a morte, como um samurai, pois detesta o falatório. Sabe se que a invenção dos haicais se deu pela arte do samurai. Basho foi um grande samurai antes de ser poeta, que trocou a espada por uma arma mais mortal. Darlon confessa ter ódio da linguagem, apenas fala para o vento da sua voz empurrar ou assustar alguém ao abismo.

O horizonte é a dor preparatória para a nobre morte, por isso a maior parte do tempo o horizonte é azul. A melancolia do azul é na verdade essa perda do abismo, antes de perder algo não se tinha nada, era só o vazio do abismo. O poeta altruísta alerta que a nobre morte é o caminho para felicidade, em que um dia distraído entre as pedras soltas, tomou um tombo ao sem fim. Ele só teve vontade de voltar para provocar a queda em outros.

Depois de ter se recolhido do abismo sua áurea se tornou violeta, o pai-mãe do universo, assim como a vibração ultravioleta de Nanã. Das anãs, porém raras palavras, saem araras voando cheia de cores. O arco-íris de Oxumaré advertindo as tendências naturais. O violeta é a cor mais velha do dia, basta olhar o fim do crepúsculo. Uma flor caída é também uma semente, que deitada na lama pode brotar a vida e ainda florescer um lótus.

Quando no pico da mais alta montanha, A Montanha de Ouro, se escorrega ao abismo não há mais volta possível. Não se pode voar para voltar, mesmo que seja um anjo no retorno, já se é outro. Saber não é importante, pois no abismo nada vale o conhecimento da locomoção, é melhor ainda não saber. Andar, nadar e voar são os mesmos e nenhum ao mesmo tempo.

Essa montanha de poucas palavras está cheia de armadilhas, são os ideogramas orientais, é o caminho das pedras. Não te esqueças, todos nós somos Maomé e é mandamento ir à montanha. Cada pedra vai te fazer rolar ao perpétuo eco. Cuidado! Cuidado! Cuidado!

Darlon Silva,
Poeta.

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Quando se bota fogo na madeira com o tempo só restam às cinzas. A madeira se torna a brasa ideal para dançar. Danço descalço no queimar dos meus pés, pois já perdi o medo de não ser eterno. Ardente como sou, danço até o fim, então descubro que não existe o fim, só são reais os ciclos.

As cinzas são espalhadas pelo bater das asas de andorinhas que surgem de onde não há mais vida. As andorinhas gritam! E gritam de uma voz tão feminina, como sussurro de vento em meus ouvidos. Gritam por falta de uma clave de sol.

Eu virei nuvem de lágrimas e chorei idêntico a uma mãe quando perde um filho amado. Meu peito foi se tornando em tronco, meus pés em raízes e quando minha cabeça se tornou tênues galhos eu me transtornei em anjo e pude voar.

Quis voltar a ser raiz, gostei tanto de ser raiz que se tornou um hábito aquilo. Então eu perdi as asas e cai do céu, levei um tombo tão grande que uma dor perpétua se apossou de mim. Desde lá eu só tento me livrar dessa dor e por isso escrevo contando sobre minha dança.


Eu levei muito tempo sendo raiz. A raiz a gente não vê, se você não olhar além da terra que a encobre, e por isso creio que poucos viram. Quando eu fui raiz me encontrei com muitos animais selvagens. Mas não tive medo de nenhum deles. O tigre, o rinoceronte, o elefante e todos os outros, todos eram meus amigos, exceto a serpente.

 Eu só criei laço com a serpente quando eu era tronco e ela rodeava me acariciando. Às vezes acho que não me familiarizei a maior parte do tempo com a serpente, pois ela se parece muito comigo e eu temo tanto a mim mesmo há quase todo tempo.

Fui fogo, água, terra e ar, mas nada foi tão gratificante quando fui serpente. Quando fui serpente, fui todos elementos unidos, fui até onde não há elementos, fui ao cosmo, ao veneno que mata e cura.


Darlon Silva,
Poeta.


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Jomarri - Arjuna Iua

A experiência estética é um vivenciar da biodiversidade. A vida criativa é uma biologia das forças da natureza divina (physis) que ativa a virilidade artística.  A duas forças existentes na biosfera, é a do feminino (anima) e do masculino (animus), elas que excitam o erótico na arte.

O artesanato é uma manifestação que se movimenta e acarreta o suor, seu caráter é do trabalho lógico, classifico como artesanato todas as artes liberais. Produz-se o artesanato na manualidade do raciocínio preciso, por tal é um caráter intrinsecamente ao masculino.

Entendo por artes poéticas o caráter mais pré-lógico da linguagem. O choro é que faz o lactente a ser amamentado. A intuição é uma força feminina da criação. As artes poéticas não são superiores ao artesanato, no entanto ela mais se aproxima ao tântrico na biodiversidade.

A biodiversidade é uma unidade do masculino com o feminino. Todo corpo é passível das duas forças, suar e chorar mutuamente. Quando o pavão abre sua cauda e se acasala podemos dizer que é o estado máximo de vigor.

Poetas e filósofos, busquemos um corpo integral!

Darlon Silva,
Poeta.

Quanto mais aperto mais escorre entre meus dedos I . Arjuna Iua.




Estiada, 2009. Rick Van Pelt

A arte oceânica, a arte pingo d’ água e da nascente são três possíveis modos de criatividade. Nessa tríade metodológica do fazer artístico se harmoniza todas as forças das intuições aquáticas. Contrapõem-se em muitos modos de como são tratadas entre elas, mas as três necessitam voltar ao estado de ciclo aquático, e por isso é uma unidade a criação da arte.

Para domar a arte oceânica é preciso ter grande alma. Saber que para a lua ficar cheia é requisito um ciclo inteiro. A maior alma é a do adolescente, pois vive em eterno conflito. É a arte do exagero por excelência, nela residem todas as cores mutuamente. E por ser cheio de vigor exige que compense (pensar com o outro), para não hipertrofiar. Para manter um verão saudável, é indispensável que tenha as outras três estações.

A arte pingo d’ água é a menos luxuosa e mais consciente. Sua força esta na simplicidade por possuir pouco. A falta de curso faz com que tome posse de toda água que se têm. E cuidando do que esta nas mãos é capaz de brotar de uma semente uma forte árvore. Sua força esta em potencializar o que esta a ao alcance.

A arte da nascente é demasiadamente amigável. Ela não para de nascerem suas águas dela mesma. Suas águas não vêm de lugar algum e por isso não se importa em trabalhar ou descansar. Qualquer um pode beber de suas águas, pois ela é de inspiração interminável. Do nada torna cheio qualquer pote.

Flui sobre três tipos do fazer artístico, o criar vaza dos símbolos: excesso de água em uma cachoeira, carência de água no deserto e a intensidade nos lençóis freáticos. Com isso não quero dizer que são as únicas fontes de adquirir água são essas. Apenas afirmo que toda criatividade é viva, e por isso de alguma forma possui água. Essa água é que sacia a sede do mundo, que é vivo.

O bom artista é aquele que torna essa água potável, mas essa afirmação carece de mais de inundações de pensamentos, deixo aqui um problema que esta no título dado propositalmente sem lavar, para que você por si escorra por um rio e descubra os enigmas das correntezas do seu corpo.

A água é toda ancestralidade do conhecer!

Darlon Silva,
Poeta.

Poema de Darlon Silva / Ilustração de Juca Lordelo
Rubem Braga me disse que as cores não existem na pena do pavão, estão elas no coração, assim quando há ação no prisma é que existem cores. Mas não acredito nessa teoria, as cores realmente estão no corpo que corre. É absolutamente o paradoxo da flecha voando que perturba Zenão de Eleia.


A cor surge do bater das asas e não da luz que se fragmenta. Dizemos que quando a arara voa ali reside um arco íris. Deus fez a arara para ter um exemplar com todas as cores. Mas ele adoeceu de catarata, seus olhos se azularam, enxerga agora com baixa visão.

Quem sabe um dia a arara ainda lembre ao próprio criador a diversidade das cores? Por que sabemos tão deformadamente o que são as cores? Pensamos que exista uma cor oposta a outra, que existe um tal branco que contém a multiplicidade em sua essência, mas que é um grave erro pensar desta perspectiva.

Analisando essa teoria, chamada por mim de cegueira, são ordenadas as cores em pura insanidade intelectual. Por exemplo, se divide em cores quentes e frias, como se as quentes fossem verdades e as frias aparências, o sol é quente, mas o mar é frio.

Quando se adentra na tradição de cultura popular veio mais fantasia ainda na tonalidade. Azul é masculino e rosa feminino, como se as cores possuíssem alma destinada no homem dominador e hipertrofiada na negação. O homem não pode ser uma arara autêntica, apenas se insistir as punições uma arara azulada.

Devemos preservar as cores, pois elas estão extintas. Sempre foram extintas, pouco visíveis. Importante guardar, pois a cor é como coringa. Estão em todos os corpos que correm/ nos corações a bombear o sangue e ainda assim rara.

Darlon Silva,
Poeta.